segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ciência do cérebro deve ajudar professores a "entrar" na cabeça dos alunos


da New Scientist

A neurociência deve fazer pelas escolas o que a pesquisa biomédica fez pela saúde. Essa é a conclusão do simpósio Decade of the Mind (DOM) na última semana em Berlim, na Alemanha, para discutir como as últimas descobertas podem ser usadas para melhorar a educação.
"Na medicina, temos um sistema excelente, desde a pesquisa básica até a prática clínica, enquanto na neurociência nós temos conhecimento básico sobre como o aprendizado cerebral funciona, mas ainda é preciso descobrir como traduzir isso em uma sala de aula", afirmou Manfred Spitzer, da Universidade de Ulm, na Alemanha, um dos organizadores da conferência.
Com imagens do cérebro e estudos genéticos complementando a pesquisa psicológica, uma série de novas descobertas poderiam informar os professores sobre as condições em que nossos cérebros podem ser aprimorados para o aprendizado.
Um dos principais temas emergentes na DOM foi que a base da aprendizagem bem-sucedida ocorre pela melhoria da função executiva cerebral --um conjunto de processos cognitivos importantes para o autocontrole e o enfoque na tarefa em realização. Estudos a partir de imagens cerebrais mapearam a função executiva de várias regiões, incluindo a do giro cingulado anterior, que se acende durante uma detecção de erro, e quando crianças aprendem matemática e alfabetização.
Vários estudos apresentados no simpósio mostraram que a melhoria no aprendizado da função executiva cerebral em uma criança poderia ser alcançada com mudanças relativamente pequenas, como pela alteração do horário de exercícios ou pelo incentivo à prática de um instrumento musical.
O desenvolvimento da função executiva começa antes dos anos escolares, e prossegue na adolescência. Michael Posner, da Universidade de Oregon (EUA) disse no encontro que as evidências da função executiva cerebral aparecem nas crianças aos sete meses de idade. "Se eu fosse mudar algo na educação, seria para que ela começasse na infância, e usando os pais como uma ferramenta inteligente para trabalhar com os seus filhos", disse ele.
A educação antes da escola pode trazer outros benefícios, afirma Posner. O neurotransmissor dopamina foi colocado em um papel importante na função do giro cingulado anterior. As variações genéticas no sistema dopaminérgico parecem interagir com as características da paternidade para influenciar a função executiva cerebral. Posner descobriu que crianças entre 18 e 21 meses de idade, com uma variante particularmente ativa de um gene denominado COMT (que leva a uma transmissão menor de dopamina), mostraram a melhora na atenção, em comparação com as demais variantes.
Sabine Kubesch, também da Universidade de Ulm, diz que os genes de crianças podem ser usados, um dia, para informar como eles devem ser ensinados. 'Se a sequência genética das crianças antes da escola ajudar os pais e professores a fim de decidir a melhor forma de apoiar a aprendizagem e o desenvolvimento, então sim, eu acho que pode se tornar um procedimento estabelecido no futuro", observa ela.
Independentemente disso, os resultados básicos da neurociência ainda precisam se infiltrar na sala de aula, conforme concordaram os participantes da reunião, devido ao fato de mitos e equívocos sobre o cérebro serem abundantes nas escolas (veja o quadro acima).
Medicina e educação
A educação tem um longo caminho a percorrer para espelhar melhorias na medicina, diz Noonan Eamonn do centro de pesquisas norueguês Campbell Colaboration. "A chave para a revolução que transformou o que era essencialmente o charlatanismo na medicina moderna foi profissional, com formação de base científica", diz Noonan. Ele também observa que deve haver uma melhor ligação entre cientistas e professores, assim como pesquisas devem ser mais acessíveis.
Exemplo disso é uma pesquisa feita em uma escola pelo Centro de Transferência de Neurobiologia e Aprendizagem, com sede em Ulm, na Alemanha.
Um estudo conduzido com 137 estudantes, usando o método de "aprendizagem cênica" (recitais de coral sobre o vocabulário, acompanhado de gestos e movimentos), testou a assimilação de idiomas. Aqueles que tinham aprendido pelo novo método lembravam três vezes mais das palavras novas 14 semanas mais tarde, em comparação àqueles que tinham sido ensinados por métodos convencionais. Os estudantes que usaram o método também falaram com melhor pronúncia e fluência. "Eu nunca vi efeitos tão fortes em um estudo anterior", disse Katrin Hille, que conduziu a pesquisa.

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