segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Professor dá a aluno nota maior que Saresp, mostra pesquisa

da Folha Online


Há uma significativa distância entre o que se vê em sala de aula e o que é revelado pelo Saresp, o sistema oficial de avaliação da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo.

Estudo feito por três pesquisadores do departamento de economia da USP -Ricardo Madeira, Marcos Rangel e Fernando Botelho- mostra que os professores da rede estadual dão notas maiores a seus alunos do que as que os mesmos estudantes recebem no Saresp.

Além disso, há diferença entre as notas do boletim escolar em comparações raciais e de gênero. Negros e brancos com resultado idêntico no Saresp e as mesmas características têm notas diferentes em sala de aula, em favor dos brancos. O mesmo ocorre, com intensidade maior, a favor das meninas.

Esse é o primeiro estudo que confronta o desempenho de estudantes no Saresp com as notas dos boletins escolares.

A maior discrepância foi verificada nas provas de matemática do 3º ano do ensino médio. Na escala do Saresp, só 36% dos alunos eram proficientes. Para os professores, no entanto, quase todos (93%) atingiram o patamar mínimo de aprendizado considerado adequado.

Nas provas de língua portuguesa da 4ª série, a distância foi menor: 79% de proficientes, segundo o Saresp, e 95%, de acordo com os professores.

"O que percebemos é que o professor está avaliando seus alunos de maneira diferente do Estado. Será que isso acontece porque ele é ruim e não tem capacidade de discernir adequadamente sobre a proficiência dos estudantes? Talvez. Mas, antes de jogar pedra, temos que considerar que ele vê em sala de aula características individuais que o Estado não consegue ver", dizem os autores.

Entre essas características, eles citam capacidade de expressão oral, comportamento, organização e a vivência extraclasse. Se um aluno trabalha bem em grupo, tem bom relacionamento com colegas e se mostra esforçado, isso não aparecerá no cálculo de sua nota no Saresp, mas o professor pode estar levando isso em conta no momento de avaliá-lo.

"Se a sociedade considera que a missão da escola é mais do que apenas ensinar conteúdos, é de se esperar que o professor avalie isso também. Portanto, antes de concluir que o professor é ruim, temos que considerar que pode ser que o Saresp e outros exames similares sejam instrumentos incompletos de avaliação."

No caso das diferenças de sexo e raça, os autores identificaram que a distância é significativa mesmo depois de controladas todas as variáveis observáveis. Ou seja, alunos com mesma nota no Saresp, que estudam na mesma turma e com características socioeconômicas semelhantes têm desempenhos diferentes no boletim escolar, conforme sexo ou raça.

No caso da diferença entre brancos e negros (o estudo soma autodeclarados pretos e pardos), uma hipótese é que seja resultado de discriminação.

Os autores alertam, no entanto, que o trabalho não permite comprovar empiricamente essa suspeita, até porque não foi possível identificar comportamento diferenciado de professores brancos ou negros.

Se o preconceito racial explicasse a diferença, era de se esperar que os professores negros não agissem da mesma maneira que seus colegas brancos.

Para eles, é preciso fazer mais estudos para entender por que a diferença a favor de brancos persiste mesmo considerando todas as variáveis observáveis estatisticamente.

"Entender se essa desigualdade é fruto de discriminação racial ou de diferenças socioeconômicas é importante para subsidiar políticas públicas de ação afirmativa", diz Madeira.

O normal e a norma

Por Roberto Marques*

“A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.”
(Marina Colasanti)

Jornais trazem notícias diárias sobre assaltos, assassinatos, corrupção, enfim, mazelas nossas, sociais, mas que muitas vezes insistimos em pensar que são demônios externos ao nosso paraíso. Achamos que somos “puros”, ou que nossos pecados são menores, fáceis de absolvição mediante uma reza simples ou uma boa ação caridosa, que também nos livram de possíveis culpas.
Os tiros que atravessam o ar das favelas são tiros nas favelas. Por estarem lá, o máximo que corações anestesiados, de cidadãos plenos de seus direitos, moradores de áreas exteriores, podem sentir é uma dose de piedade por aquelas almas sofredoras, vítimas potenciais de balas perdidas ou não.
Essa talvez seja a grande contradição que habita as escolas públicas municipais do Rio de Janeiro: professores, em sua maioria, não moradores de favelas, trabalham nas favelas, dentro de uma instituição que não comporta a favela, mas que ali está instalada. O drama é o de conseguir se enxergar como algo precarizado, desprovido de poder significativo, ainda que fora dali não seja necessariamente assim.
Por isso, por essa contradição, muitas vezes não nos damos conta, professores de áreas escolhidas para operações policiais de guerra, dos absurdos cotidianos. Tiros na rua ao lado nem sempre são suficientes para as aulas pararem. Tiros na rua de cima, também. A possibilidade real de confronto, muito menos (e sabemos muito bem quando irão acontecer). Nada disso parece ser motivo para desobedecer a CRE (trata-se disso: obediência) e colocar sua vida em primeiro lugar, ou dar um sinal de que isso não é normal. O importante é seguir a norma. Isso, a escola ensina muito bem.
Por isso os tiros incomodam tanto, quando perfuram as paredes da escola. Por isso os “caveirões” estacionados em frente ao portão da escola são tão violentos. Por isso as pessoas baleadas na rua da escola nos chocam tanto.
Simplesmente por nos lembrarem do atraso dos nossos movimentos. Por nos lembrarem que, nessa hora, abrimos mão de alguma coisa antes e pode ser tarde demais.

*Roberto Marques é Professor da Rede Municipal

Na América Latina o povo dá as costas a quem não é valente

Atilio Borón*, especialista em geopolítica.

“Os governos do Brasil, Argentina, Chile ou Uruguai consideram que a solução dos problemas do capitalismo se encontram no próprio capitalismo”

Zazpika-Gara (resumo da entrevista à Rebelión)

Atilio Borón é um dos grandes nomes da sociologia latino-americana contemporânea. Nasceu em Buenos Aires em 1943; suas obras se esgotam nas livrarias rapidamente. Talvez porque não seja um professor convencional e suas reflexões insistem na necessidade de transformar a realidade, trabalhando por um mundo melhor. Um mundo no qual este “continente de esperança”, como o definira Salvador Allende, seja um exemplo de que realmente é possível viver sem que o “mercado” regule nossas vidas e nossos sonhos.

Joseba Macías (JM) - Uma novidade significativa na América Latina que você bem conhece, é que boa parte dos países do continente passaram a ser governados por organizações que resultam do que poderíamos chamar de uma “reflexão socialista”. Ritmos, tradições e matizes diversas, sem dúvida, mas algo impensável há pouco tempo atrás.

Atilio Borón (AB) - Falando de socialismo em toda a sua extensão, realmente só temos como país socialista, no momento, Cuba. Logo depois há três governos, Venezuela, Equador e Bolívia, que desenvolveram processos de construção da alternativa socialista, processos muito diferentes entre si. E mais, por sorte, no momento no qual já não há mais modelos a copiar. O caso boliviano, por exemplo, se sustenta sobre uma extraordinária capacidade de organização que vem da época pré-colombiana e que deixou em maus lençóis todos os sociólogos pós-modernos que entenderam o ascenso de Evo Morales como uma manifestação precisamente pós-moderna... Na Venezuela, sem embargo, não há uma tradição organizativa nem pré-colombiana, nem pós-colombiana, o que explicaria a importância do papel da liderança de Hugo Chávez. Também Rafael Correa, no Equador, formado no cristianismo progressista da Universidade de Lovina e mais tarde doutorado em Economia em Illinois... Na minha opinião, o resto vai em outra direção. Os governos do Brasil, Argentina, Chile ou Uruguai consideram que a solução dos problemas do capitalismo se encontram no próprio capitalismo. Na Argentina, por exemplo, não resta nenhuma dúvida quando você ouve Kirchner falar. No Brasil, em dois séculos de história do sistema bancário, nunca esse sistema foi tão rentável para o grande capital como nos anos de Lula no poder. Representam mecanismo adaptativos dentro do próprio capitalismo.

Agora: também é certo que estes governos são um suporte fundamental para aqueles outros que citava no início e que estão trabalhando por uma alternativa verdadeiramente socialista. Esse é um fato real e objetivo e a isso não é estranha a forte pressão popular que, desde a base, se desenvolve nos países como Argentina e Brasil. Sem esquecer que todos estes governos da chamada “centro-esquerda” que foram tímidos, pró-capitalistas e amigos dos norte-americanos, correm nos próximos meses sérios riscos de serem desalojados do poder. Entretanto, os governos que levaram adiante com mais audácia processos de mudança, reformando a constituição, a economia, as instituições ou convocando plebiscitos de forma permanente, estão todos muito fortes. Alguma lição haveria de retirar de tudo isso, por exemplo, que quando não és valente, o povo te dá as costas. Os povos preferem o original à cópia.

JM - Gostaria de conhecer também a sua opinião sobre o papel jogado na América Latina pela social-democracia espanhola. Na distância, ao menos, dá impressão de que sua influência é realmente importante na hora de salvaguardar os interesses econômicos das empresas espanholas na região ou de exportar “receitas políticas”.

AB - Sem dúvida nenhuma. A socialdemocracia espanhola basicamente é uma cortina de fumaça que esconde a proteção das políticas de saque que estão levando a cabo muitas das empresas espanholas ali localizadas. Ai está o caso da Repsol, por exemplo. Ou o da Iberia, quando comprou os aviões da Aerolíneas Argentinas e seus escritórios por todo o mundo. Esta socialdemocracia nos vendeu também o modelo do Pacto de Moncloa, como exemplo a “exitosa” transição espanhola e vem apropriando-se paralelamente de muitos meios de comunicação em nome do grupo Prisa que ficaram sujeitos aos grandes ditames dos Estados Unidos: rádios, televisões, diários, revistas, livros escolares... Como no Estado Espanhol. Só que, na América Latina, o fato se agrava pelas condições de pobreza, de atraso cultural, etc.

JM - Na longa lista de países nos quais estão presentes estes interesses não podemos esquecer a Colômbia...

AB: - Exatamente. Sustentando a presença das empresas espanholas com a ajuda desse criminoso comum chamado Álvaro Uribe. Publiquei diversas reflexões e ensaios sobre Uribe, alguns baseados nos documentos desclassificados pelos próprios EUA. Fica claro que já desde 1991, nos informes do DEA, é o homem que articula as relações entre o cartel de Medellín e o Governo colombiano para facilitar os negócios da droga. E isso o disse o próprio DEA. O dossiê de lá para cá é incrível . E aí está a socialdemocracia espanhola apoiando tudo isso... E sem que possamos chegar a explicar diretamente ao povo espanhol, porque o controle dos meios de comunicação é absolutamente feroz.

JM - Terminando, se lhe parecer adequado, falando desta crise planetária que, paradoxalmente, parece fortalecer uma vez mais as opiniões eleitorais dos partidos conservadores em todo o mundo. Como se explica este fenômeno?

AB - Creio que a chave de tudo isso é o reflexo da grande vitória ideológica que o neoliberalismo conseguiu nos últimos quarenta anos. Ficou estabelecido que qualquer alternativa que não seja capitalista representa um delírio, uma aventura, uma salto no vazio. Creio que esta crise não vai ter a forma de um “V”, como dizem alguns, mas um “L” como já ocorreu no Japão a partir da década de 90. Estamos ante uma crise profunda e de muita longa duração. Você acredita que o G20 pode resolvê-la? É absolutamente patético. Nós instruímos os médicos que envenenaram-nos para nos dar o remédio, a curar...

Em definitivo, creio que estamos ante uma crise muito mais grave que as duas crises anteriores, a de 1929 e a de 1973. Em primeiro lugar porque nenhuma destas crises coincidiu com uma crise energética. E mais, em paralelo se desenvolve uma crise alimentar que não tem proporções. Na Europa, na África, na Ásia, na América Latina observamos motins motivados pela fome... Enquanto se utiliza uma área cada vez maior de terra para produção de biocombustíveis. Um exemplo: o pacto Bush-Lula firmado em São Paulo no ano de 2007... E finalmente vamos adicionar o tema das alterações climáticas para entender que esta crise não teve paralelo na história.

Dado este estado de coisas, só podemos pensar na construção de uma verdadeira economia pós-capitalista. Chamemos-lhe como quisermos, se trata definitivamente de avançar no processo de desmercantilização de maneira muito acelerada. Não podemos continuar com critérios mercantis para regular a relação entre nossas sociedades e a natureza. E este deve ser um princípio básico do mundo a construir: desmercantilizar a natureza, a saúde, a educação, a segurança social ....

Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.

O original encontra-se em: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=96979

*Politólogo e Sociólogo argentino. Site: http://www.atilioboron.com.

Traduzido por: Dario da Silva

O Texto acima foi encaminhado pelo Professor da Rede Municipal, Roberto Mansilla.

Voto Obrigatório

Por Luiz Baltar*

Para quem não sabe, o voto tornou-se obrigatório no Brasil na década de 30. Há quase 80 anos carregamos esse fardo. O voto é um direito, ser obrigado a votar, é um fardo.

Defender a manutenção do voto obrigatório nos dias atuais, principalmente com as mesmas justificativas daquela época, nos coloca em uma situação pouco agradável. De eternos ignorantes.

É provável que com o voto facultativo muitas pessoas deixarão de ir às urnas, porém, obrigá-las a votar sem consciência política, dá no mesmo ou até pior, como os fatos tem revelado. São pessoas que votam em qualquer um, naquele que está à frente nas pesquisas, em quem o vizinho pediu, etc.

Votar não é um dever cívico, e sim um direito cívico, uma escolha, não uma obrigação. Da mesma forma que os cidadãos tem outros direitos legais assegurados, obrigar qualquer um a usá-los está na verdade retirando um dos seus direitos básicos, o direito de livre escolha. Queremos poder escolher e não ser obrigados a ter que escolher.

O fato do voto ser obrigatório é mais um motivo para defendermos o voto nulo, neste caso como desobediência civil contra o sistema.

* Luiz Baltar é Professor de Arte

Voto Nulo Anula Eleição?

Por Luiz Baltar*

Não, voto nulo não anula a eleição. A legislação não prevê o cancelamento das eleições por votos nulos e sim por nulidade, o que é outra coisa.

Nulidade são os votos que que por algum motivo de fraude comprovada (em uma urna, seção, etc), entre outros motivos, são excluídos da contagem. Caso a nulidade seja superior a 50% dos votos válidos, neste caso, toda a eleição será cancelada. Lembrando que votos válidos são aqueles que foram atribuídos a um candidato ou legenda, ou seja, excluídos os brancos e nulos.

Na internet há muita divulgação que o voto nulo do eleitor anula a eleição caso totalizem mais de 50% do total de votos válidos. Isso não é verdade, basta ler a legislação eleitoral para confirmar.

Infelizmente não é possível diferenciar os votos nulos que foram conscientemente anulados por qualquer propósito, daqueles que foram anulados porque o eleitor não soube operar corretamente a urna.

Neste ponto podemos concluir que tanto a obrigatoriedade do voto, quanto o uso da urna eletrônica, conspiram contra a democracia. Simplesmente porque nivelam todos os votos nulos como sendo a mesma coisa.

Muitos podem então questionar o motivo para votar nulo, já que o mesmo não tem o poder para anular a eleição. Quem faz essa indagação é porque ainda não entendeu o propósito do movimento. Não estamos nem um pouco interessados em anular qualquer eleição, pois isso não resolveria nenhum problema, queremos criar a capacidade de mobilização da sociedade, esse é o ponto. Mobilizar a sociedade para exigir mudanças no sistema ao invés de continuar alimentando-o, passivamente, através do voto.

*Luiz Baltar é Professor de Arte.

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