sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Que Fazemos, Quem Somos...

Que estranho caminho nos leva a praticar incoerências quase invisíveis? Que mecanismos nos transformam em seres obedientes a outrem ou outra coisa, ainda que façamos críticas constantes? O que transforma o trabalho intelectual em execução passiva disfarçada de liberdade individual? O que faz com que andemos em círculos e reforcemos nossas mazelas, mesmo quando mais nos movemos no sentido de produzir algum tipo de resistência?
Tais perguntas não são de resposta simples e nem pretendo respondê-las. Não tenho essa pretensão e seria contraditório buscá-la. A intenção é tentar estranhar algumas dessas incoerências, “cutucando as feridas” de algumas contradições.
No dia 21 de outubro de 2009, operação policial na Vila Cruzeiro produziu algumas prisões e alguns moradores baleados. Entre esses baleados, um jovem, em frente à escola municipal onde estudou. Professores dessa escola disseram que ele havia ido para devolver um livro, levado por empréstimo da sala de leitura dessa mesma escola. Hoje, no dia seguinte, o mesmo jovem continua internado no hospital Getúlio Vargas, na Penha, recuperando-se da cirurgia a que foi submetido. O motivo da operação policial é a resposta ao fato chocante de sábado passado (16/10/2009): um helicóptero da polícia civil foi alvejado e caiu, durante operação contra os traficantes no Morro dos Macacos.
Repare que disse que a operação policial “produziu” as prisões e os moradores baleados. Não estou dizendo, de forma nenhuma, que os policiais balearam moradores, ou que a polícia não deve combater o crime organizado. Nada disso. Falo sobre uma operação policial, sua forma e as lógicas que a orienta, que não é produzida exclusivamente pela polícia, mas que se materializa nas suas ações.
Quer dizer, há um fio – nada fino – ligando os aplausos ao atirador que estoura os miolos do jovem negro e as balas que acertaram aquele helicóptero. No seqüestro, cuja ação organizada e competente da polícia terminou com a munição na cabeça do seqüestrador, a imprensa não cansou de repetir a imagem da prova da perícia do atirador. O herói que pode nos salvar na luta do bem com o mal não usa capa, nem roupas coloridas. Veste-se de preto, com uma caveira estampada e já deve ter cantado algumas vezes o refrão sobre como deve agir[1].
Isso vai muito além da naturalização do fato ou da violência, mas indica uma legitimação das ações. A polícia, na cidade do Rio de Janeiro, anda armada. Até aí, pode-se perguntar: e daí? O problema é que a arma é a marca principal da polícia, talvez seja isso o elemento que a identifica. Acostumamo-nos a ver carros da polícia desfilando com as pontas dos fuzis ou metralhadoras para fora da janela, assim como com as notícias de policiais envolvidos com ações criminosas. A desmoralização da instituição anda de mãos dadas com a intimidação. Se não confia, tema.
A entrada do Estado na forma de operação policial na Vila Cruzeiro carrega muito de tudo isso. A capa do jornal[2] traz declaração do comandante do 1º CPA, Marcos Jardim: “É pegar o fuzil e partir pra cima deles. A sociedade exige resposta”. Será possível falar da sociedade, como se realmente a polícia fosse o porta-voz da população carioca? Talvez ele não seja tão arrogante ao se atribuir esse papel, mas realmente esteja falando sobre o que aprendeu na sua vida institucional. Aprendeu que a função da polícia é “partir pra cima deles”. Simples.
O problema é quando assumimos isso como verdade e o fazemos desde que o eles não nos inclua. Mas, como cobrar discernimento quando abrimos mão de participar, de uma cidadania que se baseia na incorporação e não na lógica do “eu faço a minha parte”?
Mais ainda, será que há o bem e o mal nessa história? Não acredito, assim como não acredito que nessa história haja dois lados apenas. Ou há um só ou há vários, tão variados quanto são as especificidades das opiniões sobre o assunto.
A mesma lógica que alimenta a comoção pelo menino morto pelo policial dentro do carro, no bairro da Tijuca, é a que aplaude o atirador de elite. Estranho? Não. O que diferencia é o alvo. O que diferencia é o valor atribuído a cada um, não apenas no momento do tiro. Se a morte é um fato tão importante na nossa sociedade, é interessante constatar como ela nos revela nossos julgamentos, principalmente sobre as pessoas que acabamos de ser apresentados!
Isso se repete com relação à, por exemplo, violência. No pandemônio de sábado (o do helicóptero), o telejornal anunciava que os tiros no morro dos Macacos assustaram os moradores de Vila Isabel. Ou os moradores do morro dos Macacos certamente não estavam assustados, ou não estão na ordem de preocupações da mídia, da polícia, da sociedade – aquela que exige uma resposta.
O rapaz atingido por uma bala, em frente à escola, poderia facilmente ser dado como integrante do tráfico. Algumas vezes os textos dos jornais têm o “cuidado“ de explicar que “moradores disseram” o “menor” era estudante, ou que era “trabalhador”. Esse verdadeiro vestibular de humanidade nos revela a desigualdade impregnada nas nossas ações cotidianas, calcadas nos julgamentos morais e preconceitos diversos com os quais convivemos.
Se não há pena de morte de direito no Brasil, presenciamos a pena de morte de fato. Com aplausos.
Faixa na entrada da Vila Cruzeiro anuncia: “A paz é possível. Depende de nós também”. Infelizmente, o “nós também” que integra não ajuda a integrar a favela ao jogo institucional de forma menos desigual. Por enquanto, a entrada no mundo dos direitos e das possibilidades é pela porta dos fundos. É aí que mora a perversidade: a mesma população submetida às ações inescrupulosas e brutais do crime organizado é obrigada a se sacrificar, inclusive com sua própria vida, para que a sociedade respire aliviada. Significa que o que motiva a presença do Estado na garantia da sua segurança não é o direito à segurança, mas a aceitação de que ela é o foco da insegurança da mesma sociedade que produz a sua desqualificação.
Nisso, as escolas públicas da Vila Cruzeiro funcionam, abrem. Sem alunos, pois os moradores sabem o perigo que correm. Para a secretaria de educação, o importante é o cumprimento dos dias letivos, para a de administração é o cumprimento do horário, para a prefeitura como máquina, é a obediência que está em jogo, professores, direção, funcionários, todos obedecem. Arriscam suas vidas, cumprindo o seu dever “profissional”. Assim, ensinam. Os tiros de ontem talvez não tenham sido suficientes para atingir o marasmo, a obediência ordeira e cega, nem a catarata política. Será que não aplaudiram o atirador de elite? A vida... ah! Deixa pra lá.

Roberto Marques*

(Quinta-feira, 22.10.2009)
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[1] “Homem de preto,/qual é sua missão?/é invadir favela/e deixar corpo no chão”. – o canto ficou famoso principalmente através do filme “Tropa de Elite” e é entoado pelos integrantes do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOpE) do Rio de Janeiro.
[2] Edição do jornal “Extra”, 21/10/2009.
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* Roberto Marques é Professor da Rede Municipal de Ensino

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